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Mergulhou na piscina de manteiga invisível verdejante de papel. Sorriu para as conchas espessas pairantes no céu de atmosfera, no céu que não fica no alto, mas no meio de todas as coisas, intacto como um vento constante e repousado. Sonolento de amores sem prazos, ele pára. E as coisas o rompem sem sentir. O céu do meio do mundo.

Encontrou árvores que davam sapatos sem saltinhos de frutos. Os sapatos pendurados caiam maduros na calçada estreita. Era difícil andar por ali quando estava em época de sapatos sem saltinhos; eles despencavam sem hora marcada e atrapalhavam o caminho; a travessia tinha mais um obstáculo além da quantidade de gentes que trafegavam sem muita calma olhando para os pulsos. Por vezes os sapatos caíam nas cabeças de distraídos ou azarados. Era engraçado.

Óculos de cegueira ajudavam bastante no desconforto. O medo está na cegueira das imagens; os óculos da escuridão das vistas conferia certa tranqüilidade. Um alívio de não ver tudo. Tinha uns muito eficientes. Bem grandes, tampavam bem os olhos, até as sobrancelhas. O silêncio dos olhos era necessário. As imagens cansam. Cansam muito. Várias delas já habitam na cegueira. Mesmo no fechar dos olhos, elas estão lá. Elas cantam e lastimam a vida. Mas cansam. E mesmo na ausência delas, elas arrumam um jeito de aparecer. Sorte de quem nunca as viu. Devem ter outra forma de pensar e ter medo.

Engarrafei várias vontades. Eu as guardo na geladeira e as tomo de vez em quando, ou ainda: jogo-as pelo ralo da pia da cozinha com um estranho prazer vendo aquele líquido frágil e sutil se esvair pelo aço inox. E foi. E vai. E não tenho mais. Mas são outras que me perseguem. Não sei a pior das insistências; das pragas; das daninhas: imagens, vontades… É difícil estar na minha companhia.

Esvaziar-se do tanto é utopia.

É?

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