a sensação de saber que está
sem estar
em nada

suprime
não suprime — nem canta
a razão das consequências esquisitas

— a morte.
— que tola
— a única certeza.
— é.
— vai saber.

consegue
não consegue
sem pensar — pensando sobre
fazer o que está pra ser feito
porque nada deve

— nada pode ser.
— nada é relativo.
— a morte está exausta do seu conceito.

procura
os diálogos existem
se pergunta
como seria possível
cantar com um sorriso largo cada manhã
como anestesia de bêbado cansado, mas feliz
com todo o lodo das quinas — à noite, principalmente.

sorri da timidez que não a deixa participar do mundo
— é uma escolha.
— seus olhos de calmante estão pedindo para o silêncio.
— tudo bem.
— Boa noite.

as coisas em declive escorregam até do último chão
pairam
caindo sem cair

…se houvesse a queda seguida da colisão

Cidade de U
8 de novembro de 2011

meio-dia e  pouco
dez cadeiras brancas

muitas pessoas profissionais
algumas usam lentes
talvez para ver além

uma cadeira encostada no ar está apoiada no seu conceito

quatro corpos apoiados no chão
alguns apoiam a cabeça nos ombros

uma nadadora de chão
mas ela está seca

dois homens de barba olham para vazios em forma de corpos

dispostos no espaço

tentando dizer alguma coisa
através do nada

de quantas horas precisamos?

três homens cruzam as pernas e esperam. o quê?

oito horas
e dez
e onze
e doze
e treze

infinitos tempos

de vazios
e esperas esvaziadas por palavras

Não no mesmo barco,
mas no mesmo mar.

não vale virar tempestade.
Te emprestei meu remo,
mas bússola,
cada um tem a sua.

Se oriente como quiser.
vou seguindo o vento
pra dar menos trabalho.

Mergulhar e se afogar é quase a mesma coisa.
a respiração para o deleite
e para a inconsciência.

Quem força o esquecimento e a anestesia sempre adia o momento.

O confronto sempre chega, não importa quando.

Acordou-me, com tapas.
Eu não podia tentar evitar teus erros.
Erros práticos, duros, sinceros, cruéis.
Maravilhosos sinais.
Me confessam da maneira indigerível que eu não devo tentar te salvar.

Salve-se você, Mate-se, Perca-se.

Se faça
refaça
se destrua
se liberte.

Acorde um dia ou nunca.
Desisto rápido.

Briga de tempos incongruentes.

Naveguemos.

para S. Beckett

Nada importa.
Apenas isso:
que nada importa e que nada importo.

Quando nos dermos consciência
da coincidência ausente e inexistente
do quando e onde de cada coisa,
as coisas não vão mais existir,
existirão.

Sem mais nem menos.

Apenas.

em cada sopro
estará a morte desse sopro

em cada palavra
a sentença da impossibilidade

em cada pensamento
a abstração tão mesquinha e fulgaz

do não
duro
inflexível

das dúvidas brancas
mas se olhar de perto
há pequenas variações
na forma
no tom
da cor

há som
em todo silêncio

é impossível
fazer qualquer
qualquer

é impossível até
ser impossível.

só nos resta dizer
o indizível

e amar toda
incoerência

ritmo da existência

toc
toc
toc

– quem é?
é uma sigla ou
uma onomatopeia?

toc
toc
toc

(pausa)

– Ninguém te obrigou a subir na montanha russa, minha cara. Faz uma canoa com um remo só e vai ouvir o rio. Chega de falar e ouvir palavras.

E assim, eu me disse.

No peito de quem?

Atiraste na segunda pessoa do singular
tiraste o plural que nos referia
entre nós

Agora somos cada
dois eus desnorteados
chocando cabeças

atiraste no presente
irrefletidamente
se tornando outro outro

um eu desconhecido
carrasco
enfiou goela abaixo
dores surpresas

tiraste
inconsequente
o passado sem avisar

e me fizeste uma desfeita
com o futuro

te rogo mil pragas
embriagada

sinto pena
falta
raiva
ânsia

e ainda perco alguns minutos
procurando palavras
pra preencher
meus impulsos

vingativos
doces
recalcados
mortos-vivos.

Mesmo que você volte,
adeus.

tirar cabelo do ralo
amar sozinha
planejar o desfuturo
dormir todo os dias com passados na cabeça
insônias fiéis
compor sem opinião
escrever um poema mentalmente
e esquecer

matar insetos
esquecer
trocar
arriscar tudo
pra ficar sem nada
com menos ainda
agulhas

sem saber como lidar
com o tudo
laudas
laudos
extremos
impossibilidade de equilibrio

suores
psicoses
tosses
asma sem berotec
passos no terraço
ver o que é
se é o gato
ou um ladrão

café sem pão
solidão
felicidades de anestesia
verdade
razão
saudade

sobriedade
coragem
medo
cachaça
dormir

falta de zelo
cortar o cabelo
uísque sem gelo
pesadelo

desconhecidos
fazer sala
sombras
fazer a mala
e exames

cantar
sorrir
chorar na frente de alguém
frio na costela
ansiar
me mudar

tristeza crônica
pelo quê
o quê
interrogações
paixões

reler poemas
fumar demais
viver pra mim

pontos finais

cabeça e coração
de tormentos
lembranças
dúvidas
suposições

se preparar
para o pior para sofrer menos

entender
sem absorver
o que sobra das memórias mais recentes

olhar o ontem
ouvir o ontem
cheirar o ontem
abraçar o ontem

que não condiz
com esse agora

tão árido
impreciso
indeciso