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de tempos em tempos

o passado visita

eu vou visitar

assombra encanta

com coisas que nem lembrava mais

coisas que esqueci que sabia

esquecimentos feitos de um antes vazio

criam corpo de memória

do nada

surgem como se estivessem ali o tempo todo

estavam e não estavam.

espectros

deixam espelhadas pela vida

chaves

para acender memórias

 

 

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nenhuma retomada é fácil
o passado está lá comprovante

delatador

apenas deixar pra trás

deixar pra trás não tem nada de

apenas

 

toda volta

é constrangedora

 

pela pausa

o que veio antes da pausa

é incontrolável a comparação de tempos

 

todo retorno é embaraçoso

palavras já ditas

esquecidas

(desejadamente)

 

palavras de outros tempos

de outros ventos

 

horas de agoras congelados

 

todo retorno é recalcado

toda palavra

retomada

 

mas a volta

vale

pela coragem

(tentando encontrar uma onomatopéia)

Dores reverberadas
dores possíveis

Sopros de palavras quietas
palavras possíveis

tudo pela metade
não precisa ser inteiro

o dia de cada dia
a dor de cada dor
o sopro de cada sopro
a palavra

todos saem

o que fica
são vazios categorizáveis
por palavras possíveis

não tentar
– eis a chave

sinto inteiramente só
em alguma coisa que eu chamo de mundo

mas que não é o mundo
é muito mais e muito menos

delicioso desespero
da liberdade

aqui todo dia é domingo
de semana morna

se debruça sobre os braços
deita na paz

apoio de pé é chão

simples
mais simples ainda

a complexidade se torna visível
amiga

não se pode tocar
nem entender
apenas sentir

brisa
pedra
calor

dias iguais
água da torneira?
pode beber
pisar
cair
sangrar

aqui, tudo passa.

adeus, aqui.

navalhas

banheiras

armas em noventa graus na testa

cicuta

chumbinho

– viver –

ps: suicidados vivos.

sorriso de criança, de gente viva ou morta, onírica ou terrena. sorriso.

barriguinha de cachorro pra cima, deitado no chão pedindo carinho. carinho dado.

– são meus votos.

– votos? por acaso estamos em época de eleições?

– virada.

– tô virada.

– é a hora da virada.

– então é a minha hora. hora de dormir, porque eu não me aguento mais em pé.

– tá com a pá virada, hein.

– ué, não é a hora da virada? quero avessar.

–  tá na hora do avesso, tá na hora da virada.

– Se virar o bicho pega, se parar, o bicho pega. Se avessar… sei não

– tô de ovo virado.

– amanhã melhora.

– é, pode ser. a ilusão da manhã seguinte que tudo cura.

– e no que mais podemos acreditar?

– no avesso.

 

 

 

 

as coisas em declive escorregam até do último chão
pairam
caindo sem cair

…se houvesse a queda seguida da colisão

para S. Beckett

Nada importa.
Apenas isso:
que nada importa e que nada importo.

Quando nos dermos consciência
da coincidência ausente e inexistente
do quando e onde de cada coisa,
as coisas não vão mais existir,
existirão.

Sem mais nem menos.

Apenas.

em cada sopro
estará a morte desse sopro

em cada palavra
a sentença da impossibilidade

em cada pensamento
a abstração tão mesquinha e fulgaz

do não
duro
inflexível

das dúvidas brancas
mas se olhar de perto
há pequenas variações
na forma
no tom
da cor

há som
em todo silêncio

é impossível
fazer qualquer
qualquer

é impossível até
ser impossível.

só nos resta dizer
o indizível

e amar toda
incoerência

ritmo da existência

toc
toc
toc

– quem é?
é uma sigla ou
uma onomatopeia?

toc
toc
toc

(pausa)

No peito de quem?

Atiraste na segunda pessoa do singular
tiraste o plural que nos referia
entre nós

Agora somos cada
dois eus desnorteados
chocando cabeças

atiraste no presente
irrefletidamente
se tornando outro outro

um eu desconhecido
carrasco
enfiou goela abaixo
dores surpresas

tiraste
inconsequente
o passado sem avisar

e me fizeste uma desfeita
com o futuro

te rogo mil pragas
embriagada

sinto pena
falta
raiva
ânsia

e ainda perco alguns minutos
procurando palavras
pra preencher
meus impulsos

vingativos
doces
recalcados
mortos-vivos.

Mesmo que você volte,
adeus.

julho 2018
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