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— eu queria nunca mais ter que cobrar dinheiro das pessoas.

— e pedir?

— nem pedir.

— mas aí você não poderia fazer nada.

— é horrível ser pago para se fazer algo. Cobrar por isso.

— todos nós vivemos assim. Pagamos pra viver e nos pagam pra vivermos.

— eu tenho medo de falar que nunca mais vou cobrar nenhum dinheiro para ninguém para fazer algo que eu faria mesmo sem receber dinheiro algum, mas eu tenho medo de prometer e não cumprir.

— então não prometa.

— Não vou prometer. Vou tentar fazer isso sem prometer.

— Você não vai conseguir fazer isso, eu acho.

— eu também acho. O dinheiro estraga tudo.

— eu tenho um novo livro de cabeceira. Vou te citar um trecho.

— está bem.

—  é um livro de historietas. Esta se chama “O garoto desamparado”.

— está bem.

O Sr. K., falou sobre o mau costume de engolir em silêncio a injustiça sofrida, e contou a seguinte história:  “Um passante perguntou a um menino que chorava qual o motivo do seu sofrimento. ‘eu estava‘ com dois vinténs para o cinema’, disse o garoto, ‘aí veio um menino e me arrancou um da mão’, e mostrou um menino que se via a distância. ‘Mas você não gritou por socorro?’, perguntou o homem. ‘Sim’, disse o menino e soluçou um pouco mais forte. ‘Ninguém o ouviu?’, perguntou ainda o homem, afagando-o carinhosamente. ‘Não’, disse o garoto, e olhou para ele com esperança, pois o homem sorria. ‘Então me dê outro’, disse, e tirou-lhe o último vintém, continuando tranquilo o seu caminho”.

 — e lá vou eu arrancar alguns vinténs.

— e amanhã eles já irão embora.

— eu não sei se eu tenho pena do menino ou do homem.

— vamos esperar papai noel no final do ano.

— e todos os encartes das revistas para recortar.

— O que foi?
— Nada.
— Nunca é nada.
— Não é nada. Ou melhor: sim, é nada. É nada
— Nada. Que graça!
— Nada vezes nada…
— Fora isso você tem todos os sonhos do mundo.
— Não.
— Sim.
— À parte a isso, só tenho isso.
— Nenhum sonho?
— Nenhum mundo. (pausa) Eu quero que o Fernando Pessoa morra.
— Ele já está morto.
— Então eu quero que ele renasça sem as mãos, só com os braços.
— Cruel.
— Crueldade com mortos não conta.
— Conta sim.
— Veja se isso é nome…
— Ele inventou vários outros.
— Pessoa no nome é muita pretensão.
— Pessoa é muita pretensão.
— Eu queria sumir.
— Que frase inédita…
— Pois é.

sorriso de criança, de gente viva ou morta, onírica ou terrena. sorriso.

barriguinha de cachorro pra cima, deitado no chão pedindo carinho. carinho dado.

– são meus votos.

– votos? por acaso estamos em época de eleições?

– virada.

– tô virada.

– é a hora da virada.

– então é a minha hora. hora de dormir, porque eu não me aguento mais em pé.

– tá com a pá virada, hein.

– ué, não é a hora da virada? quero avessar.

–  tá na hora do avesso, tá na hora da virada.

– Se virar o bicho pega, se parar, o bicho pega. Se avessar… sei não

– tô de ovo virado.

– amanhã melhora.

– é, pode ser. a ilusão da manhã seguinte que tudo cura.

– e no que mais podemos acreditar?

– no avesso.

 

 

 

 

– Ninguém te obrigou a subir na montanha russa, minha cara. Faz uma canoa com um remo só e vai ouvir o rio. Chega de falar e ouvir palavras.

E assim, eu me disse.

— Isso me mata.

— Claro que não, você continua bem aí.

— Não tem graça.

— Claro que tem. Cadê seu senso de humor?

— Explodiu.

— Depois você reclama. É por isso que ninguém se aproxima. Você é uma concha. Uma concha chata.

— Ai que papo mais besta. Concha é a puta que o pariu.

— Pronto. Agora vai dar ataque.

— Me deixa aqui. Não quero conversa.

— Como sempre.

— Me deixa.

— Não posso. Você pede mas eu sou fiel a você. Basta eu virar as costas e não dou quinze minutos pra você me ligar
chorando. Você depende de mim. Você precisa.

— Eu não preciso de ninguém. Pode ir embora.

— Eu não vou. Sabe porque eu não vou? Porque se eu for, eu vou ter que voltar, e isso vai me dar uma porra de trabalho.
Sair daqui , pra você fazer a sua ceninha e depois eu voltar. Eu prefiro ficar aqui de uma vez te aturando.

— Você devia ir embora.

— Vai à merda.

— Você devia ir embora.

— É, mas eu não vou. Hoje estou com preguiça. Não tô afim de dar rolé. Se eu for hoje, eu não volto. E aí você vai se
fuder achando que eu vou voltar. Hoje, se eu for, eu não volto mesmo.

— Faça isso.

— Faço mesmo.

— Eu quero que você vá embora e não volte. Eu quero que você me largue chorando no telefone. Mesmo que eu implore. Não volte. Me deixe. Eu não te deixo mas você também não me deixa. Me deixa eu te deixar. Me faz esse favor.

— Eu não posso. Eu preciso que você precise de mim.

— Deseja alguma coisa, senhorita?
— Quero uma porção de ficções grelhadas ao molho teriaki e tirinhas de versos crocantes.
— Mal amados ou bem amados?
— Podem ser líricos, ao ponto.
— Algo para beber?
— Uma dose de esperança em narrativa, com uma pedra de gelo.
— Algo mais?
— Não só isso… Ah, traz uma torta de realismo fantástico com recheio de prosa poética, tem?
— Tem, mas é de ontem. A senhorita se incomoda?

1: — Eu não amo ninguém.
2: — Ninguém nunca me disse isso.
1: — O quê?
2: — Que me ama.
1: — Eu disse que não amo ninguém.
2: — Então…
1: — Então o quê?
2: — Ninguém me ama. Eu acho. Pelo menos ninguém me disse.
1: — Eu nunca disse pra ninguém.
2: — Será que alguém já me amou e não me disse?
1: — Talvez.
2: — Você já amou?
1: — Já disse. Não. Nunca disse.
2: — e então?
1: — Nem nunca amei.
2: — Você está ficando repetitivo.
1: — Foi você quem perguntou.
2: — Você seria capaz de me amar?
1: — Não.

E teve a ilusão da paz do ceticismo.
Alguma realidade:

— Contraditório… No mínimo.
— Realidade?
— Fixação científica!

Resolveu crer na existência ou em algo(s) que lhe despertasse(m) certa simpatia:

— Contraditório… No mínimo.
— Cadê aquela história de que só o esquecimento condensa?
— Choveu.

medo
medo-mistério de criança assombrada
por fantasias de adultos

pressagia o futuro de logo, logo…
pressagia meus presságios.

você me dá medo.
medo bom; de acaso de poesia descoberta,
nervoso de desvendar coisas que nem mais lembrava que existiam:

as interseções inexplicáveis entre as pessoas
e a maneira como elas se encontram nesse mundo.