— eu queria nunca mais ter que cobrar dinheiro das pessoas.

— e pedir?

— nem pedir.

— mas aí você não poderia fazer nada.

— é horrível ser pago para se fazer algo. Cobrar por isso.

— todos nós vivemos assim. Pagamos pra viver e nos pagam pra vivermos.

— eu tenho medo de falar que nunca mais vou cobrar nenhum dinheiro para ninguém para fazer algo que eu faria mesmo sem receber dinheiro algum, mas eu tenho medo de prometer e não cumprir.

— então não prometa.

— Não vou prometer. Vou tentar fazer isso sem prometer.

— Você não vai conseguir fazer isso, eu acho.

— eu também acho. O dinheiro estraga tudo.

— eu tenho um novo livro de cabeceira. Vou te citar um trecho.

— está bem.

—  é um livro de historietas. Esta se chama “O garoto desamparado”.

— está bem.

O Sr. K., falou sobre o mau costume de engolir em silêncio a injustiça sofrida, e contou a seguinte história:  “Um passante perguntou a um menino que chorava qual o motivo do seu sofrimento. ‘eu estava‘ com dois vinténs para o cinema’, disse o garoto, ‘aí veio um menino e me arrancou um da mão’, e mostrou um menino que se via a distância. ‘Mas você não gritou por socorro?’, perguntou o homem. ‘Sim’, disse o menino e soluçou um pouco mais forte. ‘Ninguém o ouviu?’, perguntou ainda o homem, afagando-o carinhosamente. ‘Não’, disse o garoto, e olhou para ele com esperança, pois o homem sorria. ‘Então me dê outro’, disse, e tirou-lhe o último vintém, continuando tranquilo o seu caminho”.

 — e lá vou eu arrancar alguns vinténs.

— e amanhã eles já irão embora.

— eu não sei se eu tenho pena do menino ou do homem.

— vamos esperar papai noel no final do ano.

— e todos os encartes das revistas para recortar.

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