nenhuma retomada é fácil
o passado está lá comprovante

delatador

apenas deixar pra trás

deixar pra trás não tem nada de

apenas

 

toda volta

é constrangedora

 

pela pausa

o que veio antes da pausa

é incontrolável a comparação de tempos

 

todo retorno é embaraçoso

palavras já ditas

esquecidas

(desejadamente)

 

palavras de outros tempos

de outros ventos

 

horas de agoras congelados

 

todo retorno é recalcado

toda palavra

retomada

 

mas a volta

vale

pela coragem

impulsos
controlados

alguns escapam

apenas um

impulsos
silenciosos

mais um
guardado

momento de apagar palavras escritas
da memória
do e-mail
da cabeça

aquela foto que você tirou pra mim
não era pra mim
eu era só um motivo

perfurando fotografias
com um rabisco digital
aproveitando sentires sentidos

tudo pela arte contemporânea

e eu no século XVIII

impulso
um post

— eu queria nunca mais ter que cobrar dinheiro das pessoas.

— e pedir?

— nem pedir.

— mas aí você não poderia fazer nada.

— é horrível ser pago para se fazer algo. Cobrar por isso.

— todos nós vivemos assim. Pagamos pra viver e nos pagam pra vivermos.

— eu tenho medo de falar que nunca mais vou cobrar nenhum dinheiro para ninguém para fazer algo que eu faria mesmo sem receber dinheiro algum, mas eu tenho medo de prometer e não cumprir.

— então não prometa.

— Não vou prometer. Vou tentar fazer isso sem prometer.

— Você não vai conseguir fazer isso, eu acho.

— eu também acho. O dinheiro estraga tudo.

— eu tenho um novo livro de cabeceira. Vou te citar um trecho.

— está bem.

—  é um livro de historietas. Esta se chama “O garoto desamparado”.

— está bem.

O Sr. K., falou sobre o mau costume de engolir em silêncio a injustiça sofrida, e contou a seguinte história:  “Um passante perguntou a um menino que chorava qual o motivo do seu sofrimento. ‘eu estava‘ com dois vinténs para o cinema’, disse o garoto, ‘aí veio um menino e me arrancou um da mão’, e mostrou um menino que se via a distância. ‘Mas você não gritou por socorro?’, perguntou o homem. ‘Sim’, disse o menino e soluçou um pouco mais forte. ‘Ninguém o ouviu?’, perguntou ainda o homem, afagando-o carinhosamente. ‘Não’, disse o garoto, e olhou para ele com esperança, pois o homem sorria. ‘Então me dê outro’, disse, e tirou-lhe o último vintém, continuando tranquilo o seu caminho”.

 — e lá vou eu arrancar alguns vinténs.

— e amanhã eles já irão embora.

— eu não sei se eu tenho pena do menino ou do homem.

— vamos esperar papai noel no final do ano.

— e todos os encartes das revistas para recortar.

— O que foi?
— Nada.
— Nunca é nada.
— Não é nada. Ou melhor: sim, é nada. É nada
— Nada. Que graça!
— Nada vezes nada…
— Fora isso você tem todos os sonhos do mundo.
— Não.
— Sim.
— À parte a isso, só tenho isso.
— Nenhum sonho?
— Nenhum mundo. (pausa) Eu quero que o Fernando Pessoa morra.
— Ele já está morto.
— Então eu quero que ele renasça sem as mãos, só com os braços.
— Cruel.
— Crueldade com mortos não conta.
— Conta sim.
— Veja se isso é nome…
— Ele inventou vários outros.
— Pessoa no nome é muita pretensão.
— Pessoa é muita pretensão.
— Eu queria sumir.
— Que frase inédita…
— Pois é.

definitivamente
ainda
talvez

cada coisa em seu lugar

tirando o fato
de que coisas não existem
nem lugares

o que sobra
é isto
o que eu tenho

(tentando encontrar uma onomatopéia)

Dores reverberadas
dores possíveis

Sopros de palavras quietas
palavras possíveis

tudo pela metade
não precisa ser inteiro

o dia de cada dia
a dor de cada dor
o sopro de cada sopro
a palavra

todos saem

o que fica
são vazios categorizáveis
por palavras possíveis

não tentar
– eis a chave

sinto inteiramente só
em alguma coisa que eu chamo de mundo

mas que não é o mundo
é muito mais e muito menos

delicioso desespero
da liberdade

aqui todo dia é domingo
de semana morna

se debruça sobre os braços
deita na paz

apoio de pé é chão

simples
mais simples ainda

a complexidade se torna visível
amiga

não se pode tocar
nem entender
apenas sentir

brisa
pedra
calor

dias iguais
água da torneira?
pode beber
pisar
cair
sangrar

aqui, tudo passa.

adeus, aqui.

navalhas

banheiras

armas em noventa graus na testa

cicuta

chumbinho

– viver –

ps: suicidados vivos.

sorriso de criança, de gente viva ou morta, onírica ou terrena. sorriso.

barriguinha de cachorro pra cima, deitado no chão pedindo carinho. carinho dado.

– são meus votos.

– votos? por acaso estamos em época de eleições?

– virada.

– tô virada.

– é a hora da virada.

– então é a minha hora. hora de dormir, porque eu não me aguento mais em pé.

– tá com a pá virada, hein.

– ué, não é a hora da virada? quero avessar.

–  tá na hora do avesso, tá na hora da virada.

– Se virar o bicho pega, se parar, o bicho pega. Se avessar… sei não

– tô de ovo virado.

– amanhã melhora.

– é, pode ser. a ilusão da manhã seguinte que tudo cura.

– e no que mais podemos acreditar?

– no avesso.