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Personagens:
Acaso
Amanda
David
Amanda: — Parece que engoli um saco de farinha de mandioca torrada. Minha garganta seca. Meu esôfago, meus pulmões, meu estômago. Tudo seco, entalado sem tosse, sem grito, sem gemido.
David: — Engole a solidão e dorme. Engole as armaduras, engole as amarguras, engole o seco, engole o sono e a insônia. (pausa) Dá teu jeito de viver de novo. Ainda não se acostumou?
Amanda: — Me digo e me repito, mas não sara.
David: — Nada como um dia após o outro.
Amanda: — Balela. Nada como uma tristeza após a outra. Desilusões. Amores passageiros, tão curtos quanto intensos. Intensidades que logo se convertem em frustrações.
David: — Talvez tenha sido melhor assim.
Amanda: — Besteira! Na raspa das horas dos dias me falta concentração para os livros e filmes e o vazio é tudo o que procuro e tento fugir ao mesmo tempo.
David: — Que valor demasiado dar tanta importância a dois braços que se encostam em tuas costas enquanto dormes.
Amanda: — Como se você não ligasse.
David: — Não estamos falando de mim, mas de você, Amanda. Não se compare comigo. As pessoas não são iguais.
Amanda: — É, mas em certas coisas são bem parecidas.
David: — Lá vai você generalizar. O Conjunto dos humanos, o conjunto dos insetos, o conjunto dos legumes… Me diz, eu sou de qual conjunto?
Amanda: — Dos incompreensivos insensíveis.
(os dois riem)
David: — Que idiotice confiar em amores, paixões e cumplicidades de uma semana.
Amanda: — Você fala como se fosse invicto nesse quesito… Patético!
David: (ignora a fala de Amanda, continuando a falar) — Seres humanos não foram feitos para o amor. Foram feitos para o erro, para o engano e para a solidão. Amor de paixão, amor carnal, de desejo de pele, posse, ciúme, dor e mágoa… Não há e não é. O que chamam de amor, relacionamento, o raio que o parta, pode durar talvez dias, meses, mas na verdade não passam de uma tentativa de amar e ser amado; essa coisa utópica que não há, mas insistimos em encontrar e construir, em ocasionar. E muitas vezes ainda nos apoiamos no nosso querido e velho amigo acaso.
Amanda: — O acaso não existe! Tudo tem uma razão de ser.
Acaso: — Quem está falando que eu não existo? Que justificativa mais besta para comprovar minha inexistência (remedando) O acaso não existe porque tudo tem uma razão de ser. O que a razão de ser tem a ver com o acaso?
David: (rindo) — Agora eu quero ver!
Amanda: — Olha, eu só quis dizer que as coisas não vão acontecendo, assim simplesmente, por acontecer… Elas têm um porquê. Uma lógica invisível.
Acaso: — Lógica invisível?
…continua…
Confio no acaso.
Que ele me faça esbarrar
assim
distraída na rua;
no meu amor.
Amém,
Acaso e
que assim,
seja.

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