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para S. Beckett
Nada importa.
Apenas isso:
que nada importa e que nada importo.
Quando nos dermos consciência
da coincidência ausente e inexistente
do quando e onde de cada coisa,
as coisas não vão mais existir,
existirão.
Sem mais nem menos.
Apenas.
em cada sopro
estará a morte desse sopro
em cada palavra
a sentença da impossibilidade
em cada pensamento
a abstração tão mesquinha e fulgaz
do não
duro
inflexível
das dúvidas brancas
mas se olhar de perto
há pequenas variações
na forma
no tom
da cor
há som
em todo silêncio
é impossível
fazer qualquer
qualquer
é impossível até
ser impossível.
só nos resta dizer
o indizível
e amar toda
incoerência
ritmo da existência
toc
toc
toc
- quem é?
é uma sigla ou
uma onomatopeia?
toc
toc
toc
(pausa)
- Ninguém te obrigou a subir na montanha russa, minha cara. Faz uma canoa com um remo só e vai ouvir o rio. Chega de falar e ouvir palavras.
E assim, eu me disse.
No peito de quem?
Atiraste na segunda pessoa do singular
tiraste o plural que nos referia
entre nós
Agora somos cada
dois eus desnorteados
chocando cabeças
atiraste no presente
irrefletidamente
se tornando outro outro
um eu desconhecido
carrasco
enfiou goela abaixo
dores surpresas
tiraste
inconsequente
o passado sem avisar
e me fizeste uma desfeita
com o futuro
te rogo mil pragas
embriagada
sinto pena
falta
raiva
ânsia
e ainda perco alguns minutos
procurando palavras
pra preencher
meus impulsos
vingativos
doces
recalcados
mortos-vivos.
Mesmo que você volte,
adeus.
tirar cabelo do ralo
amar sozinha
planejar o desfuturo
dormir todo os dias com passados na cabeça
insônias fiéis
compor sem opinião
escrever um poema mentalmente
e esquecer
matar insetos
esquecer
trocar
arriscar tudo
pra ficar sem nada
com menos ainda
agulhas
sem saber como lidar
com o tudo
laudas
laudos
extremos
impossibilidade de equilibrio
suores
psicoses
tosses
asma sem berotec
passos no terraço
ver o que é
se é o gato
ou um ladrão
café sem pão
solidão
felicidades de anestesia
verdade
razão
saudade
sobriedade
coragem
medo
cachaça
dormir
falta de zelo
cortar o cabelo
uísque sem gelo
pesadelo
desconhecidos
fazer sala
sombras
fazer a mala
e exames
cantar
sorrir
chorar na frente de alguém
frio na costela
ansiar
me mudar
tristeza crônica
pelo quê
o quê
interrogações
paixões
reler poemas
fumar demais
viver pra mim
pontos finais
cabeça e coração
de tormentos
lembranças
dúvidas
suposições
se preparar
para o pior para sofrer menos
entender
sem absorver
o que sobra das memórias mais recentes
olhar o ontem
ouvir o ontem
cheirar o ontem
abraçar o ontem
que não condiz
com esse agora
tão árido
impreciso
indeciso

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