(tentando encontrar uma onomatopéia)

Dores reverberadas
dores possíveis

Sopros de palavras quietas
palavras possíveis

tudo pela metade
não precisa ser inteiro

o dia de cada dia
a dor de cada dor
o sopro de cada sopro
a palavra

todos saem

o que fica
são vazios categorizáveis
por palavras possíveis

não tentar
- eis a chave

sinto inteiramente só
em alguma coisa que eu chamo de mundo

mas que não é o mundo
é muito mais e muito menos

delicioso desespero
da liberdade

aqui todo dia é domingo
de semana morna

se debruça sobre os braços
deita na paz

apoio de pé é chão

simples
mais simples ainda

a complexidade se torna visível
amiga

não se pode tocar
nem entender
apenas sentir

brisa
pedra
calor

dias iguais
água da torneira?
pode beber
pisar
cair
sangrar

aqui, tudo passa.

adeus, aqui.

navalhas

banheiras

armas em noventa graus na testa

cicuta

chumbinho

- viver -

ps: suicidados vivos.

sorriso de criança, de gente viva ou morta, onírica ou terrena. sorriso.

barriguinha de cachorro pra cima, deitado no chão pedindo carinho. carinho dado.

- são meus votos.

- votos? por acaso estamos em época de eleições?

- virada.

- tô virada.

- é a hora da virada.

- então é a minha hora. hora de dormir, porque eu não me aguento mais em pé.

- tá com a pá virada, hein.

- ué, não é a hora da virada? quero avessar.

-  tá na hora do avesso, tá na hora da virada.

- Se virar o bicho pega, se parar, o bicho pega. Se avessar… sei não

- tô de ovo virado.

- amanhã melhora.

- é, pode ser. a ilusão da manhã seguinte que tudo cura.

- e no que mais podemos acreditar?

- no avesso.

 

 

 

 

a sensação de saber que está
sem estar
em nada

suprime
não suprime — nem canta
a razão das consequências esquisitas

— a morte.
— que tola
— a única certeza.
— é.
— vai saber.

consegue
não consegue
sem pensar — pensando sobre
fazer o que está pra ser feito
porque nada deve

— nada pode ser.
— nada é relativo.
— a morte está exausta do seu conceito.

procura
os diálogos existem
se pergunta
como seria possível
cantar com um sorriso largo cada manhã
como anestesia de bêbado cansado, mas feliz
com todo o lodo das quinas — à noite, principalmente.

sorri da timidez que não a deixa participar do mundo
— é uma escolha.
— seus olhos de calmante estão pedindo para o silêncio.
— tudo bem.
— Boa noite.

as coisas em declive escorregam até do último chão
pairam
caindo sem cair

…se houvesse a queda seguida da colisão

Cidade de U
8 de novembro de 2011

meio-dia e  pouco
dez cadeiras brancas

muitas pessoas profissionais
algumas usam lentes
talvez para ver além

uma cadeira encostada no ar está apoiada no seu conceito

quatro corpos apoiados no chão
alguns apoiam a cabeça nos ombros

uma nadadora de chão
mas ela está seca

dois homens de barba olham para vazios em forma de corpos

dispostos no espaço

tentando dizer alguma coisa
através do nada

de quantas horas precisamos?

três homens cruzam as pernas e esperam. o quê?

oito horas
e dez
e onze
e doze
e treze

infinitos tempos

de vazios
e esperas esvaziadas por palavras

Não no mesmo barco,
mas no mesmo mar.

não vale virar tempestade.
Te emprestei meu remo,
mas bússola,
cada um tem a sua.

Se oriente como quiser.
vou seguindo o vento
pra dar menos trabalho.

Mergulhar e se afogar é quase a mesma coisa.
a respiração para o deleite
e para a inconsciência.

Quem força o esquecimento e a anestesia sempre adia o momento.

O confronto sempre chega, não importa quando.

Acordou-me, com tapas.
Eu não podia tentar evitar teus erros.
Erros práticos, duros, sinceros, cruéis.
Maravilhosos sinais.
Me confessam da maneira indigerível que eu não devo tentar te salvar.

Salve-se você, Mate-se, Perca-se.

Se faça
refaça
se destrua
se liberte.

Acorde um dia ou nunca.
Desisto rápido.

Briga de tempos incongruentes.

Naveguemos.

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