navalhas
banheiras
armas em noventa graus na testa
cicuta
chumbinho
- viver -
ps: suicidados vivos.
palavras anódinas
navalhas
banheiras
armas em noventa graus na testa
cicuta
chumbinho
- viver -
ps: suicidados vivos.
sorriso de criança, de gente viva ou morta, onírica ou terrena. sorriso.
barriguinha de cachorro pra cima, deitado no chão pedindo carinho. carinho dado.
- são meus votos.
- votos? por acaso estamos em época de eleições?
- virada.
- tô virada.
- é a hora da virada.
- então é a minha hora. hora de dormir, porque eu não me aguento mais em pé.
- tá com a pá virada, hein.
- ué, não é a hora da virada? quero avessar.
- tá na hora do avesso, tá na hora da virada.
- Se virar o bicho pega, se parar, o bicho pega. Se avessar… sei não
- tô de ovo virado.
- amanhã melhora.
- é, pode ser. a ilusão da manhã seguinte que tudo cura.
- e no que mais podemos acreditar?
- no avesso.
a sensação de saber que está
sem estar
em nada
suprime
não suprime — nem canta
a razão das consequências esquisitas
— a morte.
— que tola
— a única certeza.
— é.
— vai saber.
consegue
não consegue
sem pensar — pensando sobre
fazer o que está pra ser feito
porque nada deve
— nada pode ser.
— nada é relativo.
— a morte está exausta do seu conceito.
procura
os diálogos existem
se pergunta
como seria possível
cantar com um sorriso largo cada manhã
como anestesia de bêbado cansado, mas feliz
com todo o lodo das quinas — à noite, principalmente.
sorri da timidez que não a deixa participar do mundo
— é uma escolha.
— seus olhos de calmante estão pedindo para o silêncio.
— tudo bem.
— Boa noite.
as coisas em declive escorregam até do último chão
pairam
caindo sem cair
…se houvesse a queda seguida da colisão
Cidade de U
8 de novembro de 2011
meio-dia e pouco
dez cadeiras brancas
muitas pessoas profissionais
algumas usam lentes
talvez para ver além
uma cadeira encostada no ar está apoiada no seu conceito
quatro corpos apoiados no chão
alguns apoiam a cabeça nos ombros
uma nadadora de chão
mas ela está seca
dois homens de barba olham para vazios em forma de corpos
dispostos no espaço
tentando dizer alguma coisa
através do nada
de quantas horas precisamos?
três homens cruzam as pernas e esperam. o quê?
oito horas
e dez
e onze
e doze
e treze
infinitos tempos
de vazios
e esperas esvaziadas por palavras
Não no mesmo barco,
mas no mesmo mar.
não vale virar tempestade.
Te emprestei meu remo,
mas bússola,
cada um tem a sua.
Se oriente como quiser.
vou seguindo o vento
pra dar menos trabalho.
Mergulhar e se afogar é quase a mesma coisa.
a respiração para o deleite
e para a inconsciência.
Quem força o esquecimento e a anestesia sempre adia o momento.
O confronto sempre chega, não importa quando.
Acordou-me, com tapas.
Eu não podia tentar evitar teus erros.
Erros práticos, duros, sinceros, cruéis.
Maravilhosos sinais.
Me confessam da maneira indigerível que eu não devo tentar te salvar.
Salve-se você, Mate-se, Perca-se.
Se faça
refaça
se destrua
se liberte.
Acorde um dia ou nunca.
Desisto rápido.
Briga de tempos incongruentes.
Naveguemos.
para S. Beckett
Nada importa.
Apenas isso:
que nada importa e que nada importo.
Quando nos dermos consciência
da coincidência ausente e inexistente
do quando e onde de cada coisa,
as coisas não vão mais existir,
existirão.
Sem mais nem menos.
Apenas.
em cada sopro
estará a morte desse sopro
em cada palavra
a sentença da impossibilidade
em cada pensamento
a abstração tão mesquinha e fulgaz
do não
duro
inflexível
das dúvidas brancas
mas se olhar de perto
há pequenas variações
na forma
no tom
da cor
há som
em todo silêncio
é impossível
fazer qualquer
qualquer
é impossível até
ser impossível.
só nos resta dizer
o indizível
e amar toda
incoerência
ritmo da existência
toc
toc
toc
- quem é?
é uma sigla ou
uma onomatopeia?
toc
toc
toc
(pausa)
- Ninguém te obrigou a subir na montanha russa, minha cara. Faz uma canoa com um remo só e vai ouvir o rio. Chega de falar e ouvir palavras.
E assim, eu me disse.
No peito de quem?
Atiraste na segunda pessoa do singular
tiraste o plural que nos referia
entre nós
Agora somos cada
dois eus desnorteados
chocando cabeças
atiraste no presente
irrefletidamente
se tornando outro outro
um eu desconhecido
carrasco
enfiou goela abaixo
dores surpresas
tiraste
inconsequente
o passado sem avisar
e me fizeste uma desfeita
com o futuro
te rogo mil pragas
embriagada
sinto pena
falta
raiva
ânsia
e ainda perco alguns minutos
procurando palavras
pra preencher
meus impulsos
vingativos
doces
recalcados
mortos-vivos.
Mesmo que você volte,
adeus.
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